O amor é como as flores: “ As flores não tem porquês. Elas florescem porque florescem...”

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sei que tenho que fazer um jardim

Há duas semanas enquanto caia uma chuvinha boba, estava sentada na varanda e fiquei olhando o quintal. Percebi que o quintal estava meio descuidado e eu não gosto de descuido é feio! Falta de amor! Pensei vou mudar esse quintal! Me empolguei, nossa! Como fiquei feliz! Já fui imaginando mil coisas , caminhos de pedras ou de pedaços de toras de árvores. Uma cerca viva aqui , outra cerca de tronquinhos de eucalipto ali,na parte mais elevada embaixo do pé de caju poria areia p/as crianças brincarem. Ah! um gazebo com bancos, com almofadas coloridas,ah! Que delícia ler ao ar livre! E de manhã e no fim da tarde molhar o jardim sentindo aquele cheirinho de terra! Ver as plantinhas crescendo, cuidar das bichinhas . Até os tipos de plantas já sabia, pegaria uma muda de pitanga com a Fernanda e com a Paula uma plantinha sem vergonha que dá em todo lugar, que tem um nome bem apropriado, minha vó chamava de piranha!Seria o meu Éden.
É claro que não pensei em dinheiro, nem que a casa não é minha, que não sei até quando vamos morar nela. Isso lá é pensamento de mulher!
À noite em meio a minha empolgação fui falar com meu marido e a realidade nua , crua e cruel me deu uma rasteira me jogou no chão!!Oh! Aquela areia que havia imaginado em baixo do pé de caju,as crianças brincando felizes e eu lá no meu gazebo lendo em paz!Pois ela virou um pavoroso depósito de xixi de bichos , o gazebo ,seria necessário uma fortuna para construí-lo. E as pragas, as cobras que se esconderiam no meio das plantinhas. Se fosse há um tempo atrás acho que teria até chorado!Não argumentei. Recolhi minha viola e sai de fininho. Quem é casada com engenheiro há de me entender!Que desilusão!!!
Nos dias seguintes continuou a chover e eu ainda olhando p/ quintal. Ainda com planos, porém mais modestos!
E como dizem e eu acredito piamente “O universo conspira a favor”,eis ,que ganho um lindo presente , remédio infalível para a minha desilusão. Um texto do Rubem Alves: JARDIM

Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria."
Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.
O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.
Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.
Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!
Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...
Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:
Se, no teu centroum Paraíso não puderes encontrar,não existe chance alguma de, algum dia,nele entrar.
Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:
"No mistério do Sem-Fim,equilibra-se um planeta.E, no planeta, um jardim,e, no jardim, um canteiro:no canteiro, urna violeta,e, sobre ela, o dia inteiro,entre o planeta e o Sem-Fim,a asa de urna borboleta."
Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso." (O retorno eterno, p 65).



Pois foi com essas sábias e encantadoras palavras que mandei embora minha desilusão e como dizem que as coisas antes de acontecer pairam no ar. Acredito que não foi por acaso que esse texto apareceu em minha vida. Sei que preciso fazer o Meu Jardim.

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