O amor é como as flores: “ As flores não tem porquês. Elas florescem porque florescem...”

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A psicóloga

Ela, depois dos 50 anos, tomou antipatia pelos problemas, sejam dela ou dos outros.
As pessoas de repente passaram a reclamar demais. Principalmente da saúde.
Suas amigas andam taradas, mal humoradas, com calores e depressões.
Seus pais, sempre às voltas com remédios, médicos, exames, hospitais... carências, chantagens emocionais.
Os amigos: colesterol, impotência, calvícies, separações. Como estão barrigudos!!! O galã da faculdade, motorista de taxi em Fortaleza.
A amiga bonitona, casou-se com um médico, proctologista! Não têm filhos, não tem sexo! Mas têm viagens, carro importado, plásticas e analista, três vezes na semana...será que tem amante?
Há poucos dias a notícia: seu professor de psicanálise suicidou-se. Era o seu guru, o cara mais equilibrado e bem resolvido que ela conhecia, seu mundo caiu!
Ela, doutora em Terapia Familiar, pós doutorados mil !! Não casou, não teve filhos, não teve tempo...
Os irmãos todos muito bem. Famílias felizes, muitos afazeres, reformas, financiamentos, Disney, intercâmbios...
Ela, solteira. Cuidando dos pais!
Sua solidão incomoda os amigos, que se sentem na obrigação de telefonar-lhe de vez em quando. Porém, esquecem-se de deixá-la falar, despejam-lhe seus pepinos e abacaxis! Alguns moram muito longe, outros estados, outros países. Estes enviam-lhe emails, alguns enormes. Descrevem em detalhes minuciosos seus grandes... problemas!
E ela, que anda muito sem paciência, começou um curso de dança de salão, está namorando um negão e manda um aviso – Estou fechada para problemas! Emails cheios de pepinos e abacaxis eu deleto e quem me telefonar para desabafar, mando tomar no ...
Está dado o recado.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Uma tarde... um rio


Um dia, numa tarde, andei por um rio, Rio Trombetas e nunca mais esqueci.
Depois de algum tempo andei por este poema ...


Menino do mato - Manoel de Barros


Eu bem sabia que a nossa visão é um ato
poético do olhar.
Assim aquele dia eu vi a tarde descoberta
nas margens do rio.
Como um pássaro desaberto em cima de uma pedra
na beira do rio.
Depois eu quisera também que a minha palavra
fosse desaberta nas margens do rio.
Eu queria mesmo que as minhas palavras
fizessem parte do chão como os lagartos
fazem.
Eu queria que as minhas palavras de joelhos
no chão pudessem ouvir as origens da terra.


domingo, 22 de agosto de 2010

Dois cantos pela manhã

Dois cantos pela manhã
Bem-te-vi e Clara
Bem-te-vi dizendo que bem me viu!
Ô bicho maluco!
Como bem-me-viu?
Eu, embaixo dos lençóis?
E Clara:
- Eu sou uma menina muito bonita, até me equilibro num pé só!!! Lá,lá,lá!!!
Não sei qual dos três é mais maluco.
Eu, Clara ou o Bem-te-vi?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Uma história para Clara


Camila com 9 anos,
Pedro com 1 ano e 1 mês,
Eu com 39 anos e 6 meses.
Era 27 de novembro, Dia de Nossa Senhora das Graças!
Missa no Colégio Providência, Camila na coroação!
Logo cedo Lelete pendurando as roupas no varal disse-me:

- Patroa, desculpa falar, mas suas calcinhas estão muito feias!

Eu achei aquilo um pouco petulante da parte dela, mas concordei imediatamente.
Preciso esclarecer: Eram feias porque eram grandes e beges! Eram grandes porque, calcinhas grandes são mais confortáveis e quando se tem um bebê de um ano, você quer mais conforto do que beleza, pelo menos era assim que eu pensava...
O comentário petulante, discarado e sincero de Lelete me transformou numa mulher perplexa!!! Meu Deus!!! Onde foi parar aquela mulher sensual, vaidosa, charmosa, ousada, safada....?
Ah! Detesto a sensação de sentir-me feia, ultrapassada, comum, simplesinha, basiquinha...
Saí, sabendo em qual direção seguir: Rua Direita, Sinu’s. Esse era o nome da loja de roupas íntimas. Comprei umas quatro calcinhas "daquelas” !

Como sou uma pessoa um tanto quanto ansiosa! Quase que saio da loja com uma calcinha nova. Mas a maturidade trouxe-me um pouco de paciência e consegui esperar até a noite, que foi assim... uma loucura!!!!
Ai,ai,ai, Santa Lelete, porque não me avisou antes?

Voltei para a academia, emagreci dois quilos , comprei umas roupas mais sensuais e voltei a sorrir. Eis que duas semanas depois, fiquei extremamente desanimada, não queria saber de academia, calcinhas e muito menos de marido! Nesse caso também já sabia a direção a seguir: Consultório médico e tome remédio para depressão. Não passou pela cabeça do médico que aquela mulher, articulada, esclarecida, moderna, fosse capaz de engravidar pela terceira vez!
Três filhos é coisa de gente atrasada, classe baixa, pobres ignorantes... Tomei uns três comprimidos. A coisa piorou, menstruação um dia atrasada. Mais uma vez já sabia a direção a seguir: laboratório de análises clínicas, em segredo! Espera de duas horas em casa quietinha imaginando coisas...

Resultado: POSITIVO!!!

Boquiaberta, espantada, amedrontada, emocionada. Envergonhada? Talvez. Trinta segundos depois, segura, decidida, dona do mundo, poderosa e extremamente feliz! Acho que era a Clarinha me dizendo que também já sabia a direção a seguir e que juntas seríamos sempre muito felizes!


N.A – 4 meses depois, tive que comprar mais calcinhas, desta vez grandes e beges, novamente!
9 meses depois nascia uma linda bebezinha de olhinhos azuis!!!!

Um presente para Clarinha


Para a menininha mais linda do mundo!
Que há três anos nos encanta...


Menininha – Vinícius de Moraes

Menininha do meu coração
Eu só quero você
A três palmos do chão
Menininha não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada
Batendo palminha
Fingindo assustada
Do bicho-papão.

Menininha, que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a viver
Fique assim, meu amor
Sem crescer
Porque o mundo é ruim, é ruim e você
Vai sofrer de repente
Uma desilusão
Porque a vida é somente
Teu bicho-papão.

Fique assim, fique assim
Sempre assim
E se lembre de mim
Pelas coisas que eu dei
Também não se esqueça de mim
Quando você souber enfim
De tudo o que eu amei.

sábado, 14 de agosto de 2010

Quem não chora, não mama II


Escrito a pedido de uma certa pessoa...mas é tudo verdade...


9 anos. Essa é a diferença de idade entre eu e minha irmã mais nova. Antigamente lá pelos idos de 1976, essa diferença fazia realmente a diferença, com perdão do trocadilho!!!

É que uma menina de classe média baixa, nessa idade, já tinha lá suas responsabilidades, que, confesso, detestava quase todas. A pior: lavar o banheiro. A melhor: tomar conta da irmã mais nova, bebezinha, recém-nascida.

Olhava para aquele bebê e fazia-lhe promessas – Você bebezinho, não vai passar pelos mesmos problemas que eu!

Meus grandes problemas, além de lavar o banheiro e nunca conseguir secá-lo direito, eram também: ir a pé ou de ônibus a todos os lugares, pois não tínhamos carro, morar em um bairro onde não havia ônibus e tinha fama de lugar perigoso, roupas feitas pela mãe (odiava!). As amigas de roupas compradas prontas na Mesbla, sim, até jeans elas tinham e eu de vestidinho de lastex com estampa de maçãzinhas. Desculpa mãe, hoje daria todas as roupas compradas prontas na Renner pelas roupas tão lindas que você fazia!

Então, ficava sentada no sofá de corino, com a Rapha no colo, assistindo ao Sítio do Pica Pau Amarelo (primeira versão), fazendo minhas promessas e desabafos e ela sempre ouvindo tudo, tão calminha, acabava dormindo, mas eu não a colocava no berço, gostava de ficar sentindo aquele corpinho tão pequenino com cheirinho de colônia jonhson’s. E enquanto estivesse com ela não precisava lavar o banheiro!

Porém a vida se encarregou de ajudar-me nas promessas feitas àquela bebezinha. Minha mãe comprou um carro, aquele Chevette Azul, do meu tio, lembra? E alguns anos mais tarde nos mudamos de bairro, Ufa!! Fomos morar no Centro, prédio bonito, tinha até elevador de carros, coisa chique mesmo!!! E a sortuda da Rapha não precisava nem atravessar a rua para ir à escola, pois esta ficava na mesma rua e na mesma calçada do nosso prédio!!!

Eu já mocinha, nossa mãe dona de confecção, todos os dias inventava uma roupa nova e a Rapha, copiando tudo... era muito engraçado, porque algumas roupas de moça de 16 anos nem sempre ficam bem em uma menina de sete. Ela não queria nem saber, usava e abusava de meus modelitos. Detalhe importante, ela copiava o cabelo também. Meus cabelos estavam compridos? O dela também! Claro!

E o mundo girou... eu me formei , casei, mudei, tive meus filhos e aqui tenho que dizer: - Rapha por sua causa tive uma das maiores decepções da minha vida. Pensava que todos os bebês fossem como você, que bastaria um colinho, uma televisão e umas promessas nos ouvidinhos, que eles ficariam quietinhos e acabariam dormindo. Meus bebês não puxaram a tia, passei muito tempo andando pela casa chorando de cansaço e balançando bebês.

E a Rapha, depois de ouvir tantos desabafos, virou psicóloga, bateu asas e voou... foi para o Rio de Janeiro e depois London, London... para aprender o inglês. Está lá, distribuindo o charme, a simpatia, a inteligência e a modéstia assimilada da irmã mais velha.

E eu, vendo isso tudo, resolvi – Agora é a minha vez de copiar! Comecei essa semana um curso de inglês...

Cora Coralina

Amo os escritos de Cora Coralina, lendo Cora, lembro minha mãe, minhas avós, minha infância...
lendo Cora sou tão feliz!!!

Gente Antiga II

Aquela gente antiga explorava a minha bobice.
Diziam assim, virando a cara como se eu estivesse distante:
“ Senhora jacinta tem quatro fulores mal falando.
Três acham logo casamento, uma, não sei não, moça
feia numa casa fácil.”
Eu me abria em lágrimas. Choro manso e soluçado...
“Essa boba...chorona...Ninguém nem falou o nome
dela...
Minha bisavó ralhava, me consolava com palavras de
Ilusão;
Sim, que eu casava. Que certo mesmo era menina feia,
moça bonita.
E me dava a metade de uma bolacha.
Eu me consolava e me apegava a minha bisavó.
Cresci com os meus medos e com o chá de raiz de fegoso,
Prescrito pelo saber de minha bisavó.
Certo que perdi a aparência bisonha. Fiquei corada
E achei quem me quisesse.
Sim, que esse não estava contaminado dos princípios
goianos,
de que moça que lia romance e declamava Almeida Garrett
não dava uma boa dona de casa.