O amor é como as flores: “ As flores não tem porquês. Elas florescem porque florescem...”

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Aprendendo a viver- Clarisse Lispector: livro de crônicas, escritas para jornal, entre 1967 e 1973. Delicioso de ler. Inicialmente li depressa, com muita avidez, depois fiquei mais calma, comecei a saboreá-lo. Estão ali crônicas que falam de sua infância, de sua vida doméstica, de sua forma de escrever, de suas dúvidas e muitas descobertas. É claro que algumas me são ainda incompreensíveis, isso sempre acontece quando leio a Clarisse, o que me desafia. Outras são para mim pura emoção, pois sinto como se estivessem ali minhas próprias palavras, meus sentimentos, minhas dúvidas e minhas descobertas. Uma delas me fez chorar e penso que se não tivesse nascido quando Clarisse ainda estava viva, juro que pensaria ser uma leitora na qual ela estivesse reencarnada, tal foi a minha identificação. Aí está:

As Três Experiências

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida.
Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O "amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importante que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém está perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda a medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o vôo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei cumprindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório ter algo no futuro.
O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias-lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase a vida e à morte.
Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.
Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá este sinal quando eu estiver ouvindo música?
Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.

2 comentários:

  1. Jac,

    A própria Clarisse dizia " não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo o entendimento". Então, as coisas que a gente não entende é porque não foram escritas para nós... É porque a gente entende com o corpo todo. È mentira que a gente entende só com a razão... invenções da filosofia moderna...
    Entendeu?! Beijo!

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  2. Leitora nº1, você tem toda razão!

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