O amor é como as flores: “ As flores não tem porquês. Elas florescem porque florescem...”

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O caso da Mara

Outro dia disse que sabia de um caso sobre ideias que surgem de madrugada. Pois é o caso da Mara.
Mara fez um curso de decoração comigo, no INAP, em Belo Horizonte. Tinha uns 45 anos. Quando soube que eu era formada em Artes, veio logo dizendo que também já fora artista, mas que não havia dado certo. Eu curiosa quis saber de toda a história...
Um belo dia, Mara começou a enxergar diferente, via nas maçanetas, nos parafusos e nas coisas de metal, um rico material artístico, que logo, ela transformou em esculturas. Algumas utilitárias: luminárias, cabideiros, mesas. Outras, em objetos de contemplação. Então, Mara começou a ganhar dinheiro e aí começou a sua loucura!
Durante o dia, andava pela cidade cumprindo suas obrigações de dona de casa, mãe e artista. Mas o cérebro artístico de Mara ia registrando tudo, sem que ela percebesse. Era assim: ela olhava nas ruas e via um monte de entulhos e sucatas, coisa normal nas grandes cidades, só que não percebia de imediato aquilo que estava vendo, pois eram muitas informações, trânsito, gente andando na frente do carro, buzinas, assaltos, essas loucuras de cidade. Mas o cérebro de artista ia registrando tudo, quietinho. Cérebro bem mineiro penso eu.
À noite, já de madrugada, enquanto Mara dormia, seu cérebro a sacaneava e tratava de acordá-la, lembrando-lhe as caquarecadas vistas durante o dia pelas ruas. Dizia-lhe - Lembra você viu, lá na Guaicurus, perto da Amazonas, uma mola de carro. E lá na Contorno com Francisco Sales, um volante velho. Mara então, não aguentando tanta provocação, sentia logo o gostinho do desafio e com enorme excitação levantava-se, vestia-se e ia para rua, tendo o cérebro endiabrado como seu navegador, pois era ele quem apontava todas as direções a serem seguidas.
É claro que o marido não era acordado e muito menos sabia onde Mara estava àquela hora da madrugada. Isso acontecia esporadicamente, mas foi aumentando, até que um dia o marido acordou e não encontrou Mara ao seu lado. O mundo caiu. Como explicar que estava na Avenida dos Andradas de madrugada, atrás de sucatas para suas esculturas? Mas, ele sabia que a mulher era meio maluca, ninguém enlouquece da noite para o dia! Acabou perdoando, mas impôs uma condição. Mara teria que largar a arte. E foi o que ela fez, foi estudar decoração!
Mas Mara não ficou triste não! Na última vez que a vi, ela estava num tremendo carrão vermelho, acho que era um Honda não sei o quê! Pois que Mara se tornou uma decoradora de sucesso!

4 comentários:

  1. Jac, sua danada! Cê tá virando cronista mesmo... Tô achando tudo isso tão legal! Não que eu entenda de estilo literário, tipo diferença entre crônica e conto por exemplo, mas que eu sei apreciar um bom texto eu sei... modéstia a parte, e o seu está definitivamente ótimo.
    Beijos corujas, que já estão ficando deliciosamente repetitivos!
    Sua leitora nº 1.

    ResponderExcluir
  2. Minha querida leitora nº1. Vou lhe confessar que também não entendo bosta nenhuma! E o bom está sendo justamente isso! Essa é a minha ousadia maior, escrever de qualquer maneira, pintar e bordar com as palavras. Estou Fazendo o que nunca tive coragem de fazer com as tintas,os lápis, os papéis e as telas.
    Esse blog é o meu playground.

    Por favor não se acanhe, continue a elogiar o que merece ser elogiado, porque eu gosto muito!

    ResponderExcluir
  3. Jac,

    Ficou legal mesmo! A Mara saía de madrugada para catar sucata e torná-las arte. Eu vago de madrugada no meu computador para fazer um trabalho que traz para as pessoas dignidade, cidadania, alegria...essa é minha arte!
    bjs,
    Pat

    ResponderExcluir
  4. Minha escultora de vidas! É isso aí, todo ato de criação é uma nova possibilidade de vida, é a reinvenção de novos mundos! Que Deus te ilumine sempre e lhe dê muita inpiração nessa sua arte!
    Bjs

    ResponderExcluir