O amor é como as flores: “ As flores não tem porquês. Elas florescem porque florescem...”

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Para minha amiga Marina ...

... a primeira seguidora do blog. Obrigada!
Ontem meu amigo Rubem Alves me contou esta história, gostei tanto que vou dividi-la com você. Ela está no livro “Ostra feliz não faz pérola”.

Dona Clotilde

Tive uma surpresa chamais sonhada, surpresa feliz. Faz uns tempos, escrevi um artigo cujo assunto era a forma como as relações de aprendizagem e ensino se dão através das pontes poéticas que o amor constrói. Uma dessas pontes tem o nome de “metáfora”, que faz ligações entre coisas parecidas. No filme O carteiro e o poeta, o carteiro diz que se sentia como um “barco batido pelas ondas”. Essa metáfora ligou a sua alma a um barco. Eles se pareciam. “Metonímia” é quando uma imagem nos conduz a relações de proximidade. Tenho um peso de papel sem valor que o meu pai me deu. É claro que ele não se parece com meu pai. Não é metáfora. Mas foi objeto do meu pai. Ficava na sua mesa de trabalho. Por isso, porque o peso de papel e o meu pai estiveram juntos, o peso de papel me faz lembrar o meu pai. No dito artigo que se chamou ”Aprendo porque amo”, o assunto era a metonímia. Contei então uma experiência infantil, quando eu estava no primeiro ano do Grupo Escolar Brasil, na cidade de Varginha. Minha professora era a Dona Clotilde, uma jovem senhora de respeito. Pois ela fazia o seguinte: assentava-se numa cadeira bem no meio da sala, num lugar onde todos os alunos a veriam, e ia desabotoando a blusa até o estômago, ante nossos olhos assustados. Ela não se dava conta do nosso susto porque aquilo que ela estava fazendo era-lhe perfeitamente natural. Aí ela enfiava a mão dentro da blusa e puxava para fora um seio lindo, liso, branco... E nós, meninos, de boca aberta...Mas o encantamento não durava mais que cinco segundos porque logo ela pegava o seu nenezinho e o punha para mamar. Toda mãe fazia assim. Mas nós, meninos, ficávamos sentindo coisas estranhas que não entendíamos. Somente o corpo sabia. Terminada a aula os meninos faziam fila junto à Dona Clotilde, pedindo para carregar a pasta. Quem recebia a pasta era um felizardo, invejado. Aquela pasta não era pasta. Era uma metonímia do objeto desejado, proibido, o seio da Dona Clotilde... Aí inventei um ditado que ninguém entende: “Quem não tem seio carrega pasta ...” Essa história aplicada à pedagogia, serve para mostrar que frequentemente, os alunos aprendem as coisas mais difíceis(carregam a pasta) em virtude de sua relação amorosa com o professor, relação de respeito e admiração. Pois a surpresa foi esta, acontecida na cidade de Cambuquira, bem pequena, cheia de matas, de águas minerais...Fui lá fazer uma fala. Contei o caso da metonímia da Dona Clotilde . Todo mundo riu. Ao final veio a surpresa. Disseram-me que a Dona Clotilde está viva. Noventa e dois anos de idade. Mas o assombroso é que ela, aos noventa anos, defendeu tese de mestrado. E sua cabeça está mais lúcida do que nunca, cheia de indagações metafísicas... Que alegria!

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